É óbvio que se você estudou pouco, suas chances de sucesso realmente seriam reduzidas. Não há o que lamentar. Só perceba que, estudar muito não significa ficar 6, 8, 10 ou 12 horas sentado lendo livros ou apostilas. Essa é uma das maiores formas de auto-engano que podem existir. O indivíduo estuda o dia inteiro, de segunda a segunda, meses a fio e usa, inconscientemente, o tempo de estudo como desculpa pra afirmar que não sabe como não foi aprovado.
Não interessa a quantidade, mas só, e somente só, a qualidade do estudo (uma dose de sorte também). Uma hora bem estudada (num ambiente silencioso, com foco total nas ideias do texto lido) é mais relevante que um dia, um mês ou um ano de leitura frenética e superficial. Para ler um texto basta ser alfabetizado. Mas pra entender um texto é preciso ter bom senso e buscar o entendimento. São coisas rigorosamente diferentes. Ler por ler só serve como passatempo pra quem tem tempo a perder. Estudo de verdade é leitura atenta.
"Não deveríamos avaliar as ações humanas com base nos resultados". (Jakob Bernoulli) |
Mas levemos em consideração que você estudou muito e, além disso, fez tudo o que beneficiasse a si próprio: estudou muito, sem deixar de descuidar do relacionamento com seu par ou seus amigos, sem negligenciar a questão alimentar e sem esquecer de algum tipo de exercício físico pra manter o corpo saudável. Fez tudo certinho, estudou todo o programa, fez milhares de exercícios, criou fichas de resumos, calculou tudo muito bem. A aprovação era praticamente certa, mas não ocorreu. O que tem de errado nisso? A palavra "praticamente". É ela que nos faz lembrar que não se pode ter certeza em nada na vida.
Sei que num país com uma cultura religiosa tão arraigada como o que nós vivemos, é difícil esquecer essa história de destino, linhas traçadas, tempestade e bonança, e levar em consideração o que, cientificamente, realmente importa: a matemática. Se você acha que foi a vontade dos deuses que prevaleceu no resultado do vestibular, o lógico é que você desista e tente algo que os agrade. Quanto a isso, eu não tenho o que discutir. Mas se você busca uma explicação mais exata (e por que não, mais séria) do assunto, este se desenrola de uma maneira que muitos não conseguem enxergar. Vamos por partes.
Primeiro, dizer que a vida pode ser resumida em números é mais do que certo. Principalmente se levarmos em conta as probabilidades. Por exemplo, considere a chance de formação do nosso Sol, depois da "grande explosão", da forma como ele é. Agora, considere as chances de ocorrência dos seguintes fenômenos: a Terra como ela é, a distância da Terra ao Sol com se apresenta, a velocidade de rotação e translação de nosso planeta, a ocorrência de lagos minerais, de coacervados, de células heterótrofas, autótrofas, procariontes e eucariontes, de eubactérias, cianobactérias, giárdias, seres pluricelulares com fungos, rosas, sequóias, bananeiras, algas, salmões, sapos, cobras, camelos, elefantes, macacos, cachorros e seres humanos.
Pegue a probabilidade de ocorrência de cada um desses fenômenos e mais outros milhares e multiplique. Matematicamente, esse número existe. Na prática, não. Ou seja, na prática, a chance de que os seres humanos do planeta Terra existissem um dia, é zero. No entanto, estamos aqui. Ou seja, não há como prever a ocorrência de nenhum evento não relacionado à leis pré-determinadas (qualquer pessoa minimamente esperta pode prever a chance de 100% de que um parafuso afrouxe se girado no sentido anti-horário). Por mais que achemos romântico dizer o contrário, o futuro não nos pertence.
Segundo, a probabilidade é traiçoeira. Por exemplo, todos nós sabemos que a chance de o número 5 sair em um dado é de 1/6. Porém, isso significa que, se jogarmos 6 vezes um dado, com certeza sairá um número 5? Claro que não. A probabilidade existe, mas não serve como previsão exata de nada. Pode acontecer de, nas seis vezes que jogarmos o dado, o número 3 aparecer em todas elas.
Terceiro, assim como nos dados, podemos projetar nosso resultado, mas nunca ter certeza. Parece óbvio, mas não é. Que bom aluno não esperneia, culpa o mundo, chora e não se conforma com uma reprovação? Se esse aluno conseguisse refletir por um minuto na aleatoriedade que envolve nossas vidas diárias, conseguiria se contentar com o resultado que fosse.

