COMO LIDAR COM UMA REPROVAÇÃO #PARTE 2

solidão depressão vestibular

Continuando o último artigo, referente à questão da reprovação no vestibular (como lidar com uma reprovação - parte 1), me lembro bem do meu primeiro ano de cursinho e da minha primeira aula de Botânica nesse mesmo ano. O professor escreveu uma pergunta no quadro-negro que fez vários alunos ficarem reflexivos (inclusive eu). Hoje, percebo que, em várias situações, essa pergunta não tem razão de ser. Era: "O que eu fiz de errado que devo mudar?".

Esse é nosso erro e, infelizmente, faz parte de nossa cultura. Achamos que, se algo não ocorreu como prevíamos, erramos em algum ponto. Mentira. Às vezes fazemos tudo certo e realmente não conseguimos e a explicação mais aceitável é, simplesmente, que é normal que as coisas nem sempre saiam como planejamos. Não há o que discutir. O que dizer sobre um vestibular de Medicina em que 6 mil alunos disputam 50 vagas? É óbvio que não existem apenas 50 bons alunos, e muito menos os 50 aprovados serão os melhores. A lógica inquestionável é que não há vagas para todos e, por mais que alunos medianos tenham a sorte de passar (o que realmente ocorre), centenas de bons alunos ficarão para trás, não importa o quão bom sejam. Não dá pra botar São Paulo dentro de São Bernardo do Campo.

A aleatoriedade interfere a todo momento em nossas vidas, mesmo que não notemos ou não aceitemos. Posso ser o estudante mais dedicado e inteligente do planeta e fracassar do início ao fim, como posso ser um parasita que jamais teve a coragem de tentar algo e, num lance de sorte, me tornar muito bem-sucedido. Vou ilustrar essa questão com um exemplo bem simples. Só preste bem atenção: essa é uma lógica matemática que, faz, efetivamente, parte da vida de todos nós. Não é uma criação minha. A aleatoriedade influencia muito mais o mundo do que possamos imaginar. Se conseguimos ou não enxergar isso, é outra história.

Pois bem. Imagine 5 bons alunos. Todos muito parecidos e com a mesma cultura. Se um deles, por exemplo, competir com um aluno muito inferior, certamente levará vantagem e as chances de sucesso serão significativas (daí a importância do preparo: não é porque a aleatoriedade interfere nas nossas ações que deixaremos tudo à mercê das circunstâncias; quanto mais se estuda, maiores são as chances de sucesso). Se, em outro exemplo, um desses 5 alunos agora competir com um que seja muito melhor, com quase toda a certeza, levará desvantagem. Porém, o que acontece se esses 5 alunos competirem entre si? Há como prever o resultado? Não. E é aí que entra a aleatoriedade.

O vestibular não é composto de parágrafos de apostilas. É composto de milhares de páginas de conteúdos, milhares de exercício, condições físicas e mentais adequadas e sorte, muita sorte. Isso é que muitos não entendem. Péssimos alunos são aprovados e ótimos alunos reprovados. A explicação? Lances de sorte. 

Vamos ao exemplo. 5 bons alunos, muito parecidos, competindo num mesmo exame poderiam ter a sorte decidida, por exemplo, por uma moeda. Vamos supor que criando 5 caixas, de A a E, para representar os 5 alunos, joguemos, por vez, uma moeda. A aprovação será representada pela "cara", já a "coroa" representa a reprovação. A moeda vai sendo jogada até que a "cara" apareça e nossos alunos imaginários passem, cada um por sua sorte. Suponhamos os seguintes resultados:


Aluno A: [coroa] - [cara]

Aluno B: [cara]

Aluno C: [coroa] - [coroa] - [cara]

Aluno D: [coroa] - [cara]

Aluno E: [coroa] - [coroa] - [coroa] - [cara]

Nesse caso, o aluno B passou na primeira tentativa, os alunos A e D passaram na segunda tentativa, o aluno C na terceira e, o aluno E, apenas na quarta. Podemos dizer (como sempre tendemos a fazer) que o aluno B é melhor que todos, assim como o E é o pior deles? Claro que não. São todos igualmente bons. Lances de sorte é que acabaram por definir toda a configuração. Um vizinho certa vez me disse que tinha chegado a uma conclusão: "O time que ganha é sempre o que joga melhor". Queria achar de qualquer maneira a explicação pra vitória e pra derrota. Falhou redondamente. Por mais que não queiramos, lances de sorte nos acompanham a todo momento.

Estudei muitos anos com um certo colega. Sempre fomos da mesma sala. Eu era considerado o maluco que iria tentar Medicina. Ele, o aluno exemplar. Nada contra o colega, era até muito boa pessoa, mas carregava um fardo consigo: mesmo sendo o melhor aluno da sala e tendo desconto de 100% na mensalidade do cursinho, não conseguia passar em determinado curso, o mais concorrido. Resultado: desistiu dando a desculpa de que "na verdade sempre sonhei com outra coisa", tentou um curso com concorrência inferior e passou. Já eu, que tinha a certeza que estaria sempre um nível abaixo do dele, realizei meu sonho. Ele, que sempre foi bom aluno em Matemática, se tivesse levado em conta o fator da aleatoriedade, teria se acalmado, trabalhado mais e, com certeza, teria também realizado seu sonho.

Vou terminar o raciocínio com uma curiosidade: nós tendemos a considerar um time como "melhor do país" ou "melhor das Américas" ou mesmo "melhor do mundo", apenas por um título. Mas acho que poucos sabem o que a matemática tem a nos dizer. Entre dois bons times, uma final para ser justa e apontar quem realmente é o melhor, não poderia ter os tradicinais 2 ou 3 jogos, mas, no mínimo, 300! Imagine então a Copa do Mundo, com apenas um jogo. Agora dá pra entender a inconformidade dos irlandeses com a mão na bola do Henry. Ora, mesmo que inconscientemente, eles sabiam que, na Copa, poderiam tirar a sorte grande de levar o título. Boa copa pra França que, por sorte, vai estar na África do Sul.

Moral da história amigos: quem obtém sucesso não é necessariamente bom e quem fracassa não é necessariamente ruim, por mais que alguns ortodoxos digam o contrário. 

"Nunca desista dos seus sonhos" é muito mais do que uma mensagem poética. É uma realidade matemática.
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